[Retirado da
Cambridge Companion to Atheism, editado por Michael Martin e traduzido por
Desidério Murcho. Você pode comprar o livro em português aqui]
Neste
capítulo exploro a questão de o feminismo ser ou não compatível com o teísmo,
ou se ser feminista exige que se seja ateia. Por “ateísmo” quero dizer o que
Michael Martin chama “ateísmo positivo,” a crença de que Deus não existe
(Martin 1990: 463-64). E por “Deus” quero dizer “um ser pessoal omnisciente,
omnipotente e sumamente bom e que criou os Céus e a Terra” (Martin 1990: 463).
A
investigação sobre a relação entre o feminismo e o ateísmo exige que se veja as
críticas feministas à religião e ao teísmo. Baseio-me não apenas na obra de
filósofas feministas mas também nas obras de teólogas feministas. Ao longo
desta discussão viso principalmente as religiões monoteístas da tradição
judaica/cristã/islâmica dos séculos XX e XXI, e o feminismo tal como este se
manifesta desde o seu “renascimento” durante a década de sessenta do séc. XX no
mundo ocidental. Isto não significa que outras formas de religião e outros
períodos não tenham interesse para o estudo do ateísmo, nem que seja
irrelevante o feminismo anterior ao séc. XX ou de qualquer período mas não
ocidental. Contudo, apesar de algumas discussões feministas da religião
reconhecerem o papel das religiões nativas, do budismo e do hinduísmo, a maior
parte centram-se principalmente na tradição judaica/cristã/islâmica. E a maior
parte do exame sistemático da religião e do teísmo tem sido levado a cabo por
feministas nos últimos trinta anos.
O primeiro
aspecto a fazer notar sobre o tópico do feminismo e do ateísmo é não haver
muita bibliografia sobre o tema.292 Há muitos materiais publicados sobre
feminismo e religião, sobre feminismo e teologia, sobre mulheres e religião, e
até sobre feminismo e Deus.293 Mas sobre o feminismo e o ateísmo há
relativamente muitíssimo pouco, na verdade.
Segundo,
quando as filósofas e teólogas feministas escrevem sobre religião não estão
geralmente interessadas na questão ontológica de existir ou não um Deus ou
deuses, ou mesmo uma Deusa ou deusas, e que argumentos poderão existir a favor
da sua existência. Nem sequer têm mostrado interesse nas refutações racionais
da existência de Deus ou deuses, de uma Deusa ou de deusas, ou na sustentação
racional do ateísmo. Parece, por outro lado, que quase todas as feministas que
se identificam como ateístas se limitaram a afastar-se da prática e crença
religiosas, não discutindo consequentemente a relação entre ateísmo e
feminismo. Por outro lado, as feministas que não se afastaram da crença e
prática religiosas tentaram reconceber Deus significativamente, assim como o
divino e o espiritual, mantendo assim o seu feminismo sem serem forçadas a
declarar-se ateias (ou pelo menos é o que pensam).
Além disso,
as feministas mostraram pouco interesse nos instrumentos da análise conceptual
e da argumentação racional para avaliar a verdade das afirmações religiosas e
os indícios a seu favor. Nas palavras de Pamela Anderson, desconfiam dos
“argumentos formalmente racionais com respeito à existência do Deus do teísmo
tradicional” (Anderson 1998: 15), que servem apenas para “confirmar o estatuto
do patriarcado da história da filosofia ocidental” (Anderson 1998: 16).
Anderson afirma que as questões mais importantes dizem respeito a quem
pertencem as crenças religiosas, e para quem foram construídas (Anderson 1998:
16). Analogamente, Grace Jantzen escreve: “É muito mais provável, penso, que as
feministas fundamentem as nossas filosofias da religião nas experiências das
mulheres como fonte de conhecimento religioso do que nas categorias
tradicionais da revelação e da tradição: não consigo imaginar verdadeiramente
que aspecto poderia ter uma interpretação feminista do argumento ontológico”
(Jantzen 1994: 204).294
Concordo que
uma “interpretação feminista do argumento ontológico” é implausível. Pode na
verdade ser impossível: seria provavelmente um erro categorial tentar
retrabalhar o argumento ontológico de uma perspectiva feminista — a não ser que
se trate, talvez, de o desconstruir como produto social do seu tempo. Contudo,
não vejo razão para as filósofas feministas da religião não poderem usar os
instrumentos de análise conceptual e de argumentação racional; na verdade,
penso que é essencial usá-los. E estes são os instrumentos que uso para abordar
a questão de poder haver ou não um ou mais argumentos distintamente feministas
a favor do ateísmo.
Que
características tornariam tais argumentos distintamente feministas? Sugiro que
há quatro. Primeiro, o uso do conceito de género e/ou sexo como categoria
analítica na interpretação e avaliação das afirmações religiosas (Frankberry
1994: 1). Segundo, uma consciência das experiências diversificadas das
mulheres. Terceiro, conhecimento da opressão das mulheres qua mulheres,
opressão que pode assumir muitas formas diferentes e que está ligada e se
manifesta de diversas maneiras noutras formas de opressão, como a discriminação
com base na idade, raça, deficiências, preferências sexuais e classe social. E
quarto, a esperança e o objectivo moral de se acabar toda a opressão baseada no
sexo/género e nas outras categorias irrelevantes de identificação.
Por não haver
muito material sobre os argumentos feministas a favor do ateísmo, o que está
presente na bibliografia tem de ser reinterpretado para servir a investigação
do feminismo e do ateísmo, uma tarefa académica que a maior parte das teólogas
feministas não reconhecem e que a maior parte das filósofas da religião
feministas escolheram aparentemente não cultivar. Nas secções que se seguem
apresento e avalio cinco abordagens feministas principais às religiões e ideias
sobre Deus e a sua relevância para a defesa do ateísmo.
I. A RELIGIÃO PREJUDICA
AS MULHERES: UMA VERSÃO FEMINISTA DO ARGUMENTO DO MAL
O argumento feminista
mais óbvio a favor do ateísmo é uma versão do argumento do mal, derivado da
observação de que as religiões monoteístas prejudicam as mulheres.
Na sua maior
parte, as feministas que estudam a religião têm-se entregado ao que Amy Newman
chama “pôr a nu o subtexto de género presente tanto na retórica religiosa como
anti-religiosa [e] … desenlear as interconexões entre este subtexto de género e
outras práticas opressoras com as quais pode ser conectado” (Newman 1994: 30).
As feministas são fortemente críticas do conceito de mulher e dos estatutos e
papéis que lhes são atribuídos nas religiões monoteístas. Historicamente, as
mulheres têm sido excluídas da educação, incluindo da educação religiosa e
teológica; assim, não têm estado envolvidas na formação de religiões e
teologias. Às mulheres têm também sido negadas posições de liderança como
sacerdotisas, ministras, rabinas e imãs, e têm tido uma participação meramente
subordinada na vida de muitas religiões. O resultado é que se tem esperado que
as mulheres façam silêncio em contextos religiosos e que sejam quase
invisíveis, como noutros aspectos da vida social. Além disso, as religiões
monoteístas tradicionais fazem da mulher um estereótipo, quer colocando-as num
pedestal como mães e santas quer demonizando-as como tentadoras e putas,1
a fonte do mal que contamina os homens e a sociedade.295 As
religiões têm restringido a sexualidade das mulheres e têm exigido conformidade
procriadora. O controlo da natalidade, o aborto e o divórcio foram tradicionalmente
banidos e ainda o são em algumas religiões; o comportamento sexual fora do
casamento heterossexual tem sido condenado; e tem havido a expectativa de que
criar e sustentar uma família seja o seu papel principal na vida, ou até
exclusivo, servindo primariamente como esposas devotas e mães carinhosas de
filhos criados no seio da fé. Considera-se que as mulheres mais velhas têm
pouca ou nenhuma importância quando não têm valor sexual ou procriador (Christ
1979: 280-81).
Esta
estereotipagem e repressão das mulheres é encarada por muitas feministas como o
epifenómeno de uma característica mais fundamental das religiões monoteístas: a
perspectiva de Deus como um patriarca cósmico e divino. Escreve Marjorie Hewitt
Suchocki:
“Características
tradicionalmente atribuídas a Deus, como a força, sabedoria, imutabilidade,
fiabilidade e rectidão são similares a valores estereotipadamente atribuídos
aos homens, ao passo que os valores corolários aplicados à humanidade, como a
fraqueza, ignorância, vacilação e tendência para o pecado são
estereotipadamente atribuídos às mulheres. Assim o conceito de Deus como
masculino serve para definir os homens e os papéis masculinos e para reforçar a
inferioridade da definição e dos papéis das mulheres.” (Hewitt Suchocki 1994:
58)
Ao procurar
melhorar espiritualmente, os homens, como crentes religiosos, têm de tentar
abandonar o que se encara como características exclusivamente femininas e
inferiores. O estatuto de segunda classe tradicionalmente atribuído às mulheres
foi visto como justificação da violação sexual e procriadora das mulheres e da
violência perpetrada contra raparigas e mulheres que puseram em causa as
restrições religiosas ou que se limitam a não se lhes conformar adequadamente.
Em resultado disso, a dominação masculina e a subordinação das mulheres “não
são marginais, mas uma parte integral do que foi recebido como tradição
estabelecida e normativa” (Ruether [1981] 1992: 246). Como Mary Daly exprime
inesquecivelmente a ideia, “se Deus é masculino, então o masculino é Deus”
(Daly 1985: 19).
A vergonhosa
e desanimadora litania de danos infligidos às mulheres pelos proponentes das
religiões monoteístas sugere que tais religiões não são compatíveis com o feminismo
e que libertar as mulheres da submissão ou envolvimento com religiões
monoteístas aumentaria a liberdade, autonomia e bem-estar das mulheres,
libertando-as também da discriminação e estereotipagem. Poder-se-ia, contudo,
levar o argumento mais longe, sugerindo que os indícios empíricos oferecem uma
versão especificamente feminista do argumento mais geral do mal contra a
existência de Deus. A existência de opressão e injustiça de que neste planeta
as mulheres são vítimas, assim como as crianças e outros membros de muitos
grupos, tanto humanos como inumanos, é indício não apenas da danosidade das
religiões monoteístas, mas também de que não existe Deus no sentido teísta
tradicional. Pelo menos, a entidade divina postulada não é omnipotente, nem omnisciente
nem totalmente moral (Noddings 2003: 215-16).
Contudo, o
facto indisputável de as religiões monoteístas terem sido historicamente
danosas para as mulheres não pode ser indício suficiente, por si, de que o
ateísmo positivo está correcto e de que não existe Deus no sentido monoteísta
tradicional. Por que não? Há dois contra-argumentos possíveis que visam mostrar
que os factos aduzidos não são suficientes para constituir um argumento
feminista bem-sucedido a favor do ateísmo. Primeiro, algumas feministas — as
que são simpáticas às afirmações do teísmo — têm levantado questões
epistemológicas e ontológicas sobre o conceito canónico de Deus, a
interpretação das escrituras, os registos históricos das supostas intervenções
de Deus na história humana, e a relação entre as religiões tradicionais e a
vontade de Deus — questões que, se receberem um certo tipo de respostas, visam
preservar a plausibilidade da crença no divino e a sua consistência com
princípios feministas. Segundo, outros crentes — estou a pensar aqui em
fundamentalistas cristãos, judaicos ou islâmicos que não têm qualquer simpatia
pelas afirmações metafísicas, morais e políticas do feminismo — defendem a
crença na existência de Deus contra a acusação de que é viciada pela posição
subordinada tipicamente imposta às mulheres argumentando que o conceito,
estatuto e papéis atribuídos às mulheres nas religiões monoteístas tradicionais
são precisamente o que devem ser: consistentes com a vontade de Deus e com o
seu plano divino para como o “Homem.” Além disso, a injúria que as mulheres
sofreram está de acordo com o seu estatuto de segunda classe ou é o resultado
correcto da sua desobediência aos mandamentos divinos ou é em alguns casos uma
consequência da falibilidade dos homens que interpretam o seu estatuto dado por
Deus como uma autorização para as tratar mal.
Examinarei
cada um destes contra-argumentos por ordem.
2. RECONSTRUINDO O
CONCEITO DE DEUS
Muitos
filósofos e teólogos progressistas, para os quais é indisputável que as
mulheres, enquanto pessoas, são iguais, reagiram à poderosa crítica feminista
do papel opressor da religião, com o seu Deus patriarcal, tentando reconstruir
Deus. Argumentam que, como escreve Catherine Keller, “A questão da linguagem de
Deus e assim do seu género não é um passatempo trivial ou sobrenatural mas um
modo de codificar o género dos valores últimos” (Keller 1998: 226) e que, nas
palavras de Rachel Adler, “Uma linguagem de Deus exclusivamente masculina é
eticamente objectável porque fomenta a injustiça, mas é também teologicamente
inadequada” (Adler 1998: 250). A ideia de Keller e Adler é que este conceito
patriarcal de Deus está errado, que as religiões estabelecidas não
compreenderam o que é e quem é Deus e que a injustiça e opressão infligidas às
mulheres pelas religiões monoteístas podem ser obviadas por meio de um conceito
inopressor do divino. A religião monoteísta tem de ser reinventada, quer
reformando as religiões existentes quer saindo delas para criar novas religiões
(Ruether [1981] 1992: 246). As feministas sugeriram consequentemente que se
reexamine a história religiosa para descobrir os papéis libertadores
desempenhados por algumas mulheres (Ruether [1981] 1992: 247); que se
reinterprete as escrituras, tentando mostrar como o seu significado original foi
envolvido em pressupostos masculinistas (Keller 1998: 226); que se procure
assegurar acesso igual das mulheres às instituições e estruturas religiosas;
que se transforme “estruturas, conhecimento e práxis” (Adler 1998: 246-48); e
que se introduza novos rituais e práticas religiosos. Como escreve Nel
Noddings, “Alguns autores tentam mostrar que uma religião se afastou das suas
origens quando discrimina as mulheres. O argumento básico aqui é que as grandes
religiões existentes começaram como movimentos de emancipação. Um regresso a
compromissos originais iria então repor a igualdade das mulheres” (Noddings
2003: 223).
Contudo, há
divergência entre as teólogas e filósofas feministas da religião quanto ao modo
de responder à masculinidade de Deus. Tentando reconstruir Deus mas ainda no
âmbito da tradição monoteísta judaico-cristã, algumas teólogas feministas têm a
esperança de recuperar e reinterpretar Deus em termos “femininos” ou
“maternais” (veja-se Daly 1985: 19 e Ruether 1993). Isto significa que além das
propriedades masculinas tradicionais de Deus — poder, conhecimento, controlo,
justiça — as características que estão estereotipadamente associadas às
mulheres, como o amor, docilidade e comunitarismo, têm também de lhe ser
atribuídas. Com efeito, Deus é visto como um ser andrógino, possuindo as
características (estereotipadamente) associadas tanto exclusivamente aos homens
quanto exclusivamente às mulheres (Ruether 1983: 56-61). Levando a ideia mais
longe, houve quem criticasse o Deus patriarcal dotado de género argumentando
que Deus está “para lá da masculinidade e da feminilidade,” um ser que pode
consequentemente restaurar a “completa humanidade” tanto de mulheres quanto de
homens (Ruether 1993: 492, 493). Tal abordagem rejeita a ideia de que as categorias
do sexo e do género são aplicáveis a Deus; ao invés, pensar em Deus como
masculino ou feminino é visto como um tipo de erro categorial.
Outras
teólogas feministas, contudo, declararam corajosamente a sua fidelidade à
centralidade do género criando ou reinventando Deus como a Deusa, reavendo-a de
tempos históricos antigos ou pré-históricos.296 Carol Christ
argumenta que “as mulheres precisam da Deusa” e descreve a Deusa como a
afirmação do poder feminino, do corpo feminino, da vontade feminina e dos laços
e heranças femininas (Christ 1979: 276). Contudo, o estatuto ontológico da
Deusa é ambíguo. Christ sugere três possibilidades:
“1) A Deusa é
uma mulher divina, uma personificação que pode ser invocada em orações e nos
rituais; 2) a deusa é símbolo da energia de vida, morte e renascimento na
natureza e cultura, na vida pessoal e comunitária; e 3) a Deusa é símbolo da
afirmação da legitimidade e beleza do poder feminino.” (Christ 1979: 278)
Sugiro que a
segunda e terceira respostas possíveis de Christ são na verdade muito análogas.
Ambas consideram que a Deusa tem apenas uma existência simbólica, apesar de potencialmente
poderosa, e não uma existência independente de seres humanos. A este respeito,
como explica Christ, “a Deusa reflecte o poder sagrado interno à mulher e à
natureza, sugerindo a conexão entre os ciclos de menstruação, nascimento e
menopausa das mulheres, e os ciclos de vida e morte do universo” (Christ 1979:
278). Só a primeira resposta, que define a Deusa como mulher divina, é uma asserção
da existência independente da Deusa.
Christ,
contudo, parece querer ficar com as duas coisas. Sublinha esta autora que
algumas feministas encaram realmente a Deusa “como uma protectora e criadora
feminina divina e veriam a sua experiência da Deusa limitada pela asserção de
que não existe exteriormente também, além de existir no seu interior e em todos
os processos naturais” (Christ 1979: 278, itálico original). E escreve:
“Quando se
pergunta o que significa o símbolo da Deusa, a sacerdotisa feminista Starhawk
respondeu: “Depende de como me sinto. Quando me sinto fraca, ela é alguém que
me pode ajudar e proteger. Quando me sinto forte, ela é o símbolo do meu
próprio poder. Noutros momentos sinto-a como a energia natural presente no meu
corpo e no mundo.” Como avaliar tal afirmação? Os teólogos poderiam dizer que
estas são palavras de uma pensadora desleixada. Mas a minha intuição mais forte
diz-me que contêm uma sabedoria que o pensamento teológico ocidental perdeu.”
(Christ 1979: 278-79)297
Não são
apenas os teólogos que podem considerar estas ideias pensamentos desleixados; é
provável que muitos filósofos não se deixem também impressionar, considerando
que o sistema de crenças de Starhawk é de um relativismo que em nada nos ajuda.
É fácil compreender a Deusa como uma ideia poderosa que pode não só simbolizar
as mulheres fortes e a natureza, mas também fornecer ajuda psicológica a quem
precisar (Gross 1996: 226-27). Mas a afirmação de que há uma entidade autónoma,
trans-humana chamada a Deusa é uma afirmação muito mais forte, uma afirmação
ontológica que exige justificação epistémica. As duas não são consistentes
entre si.
Além disso, o
postulado feminista de substituir o Deus tradicional — seja um Deus feminista,
um Deus andrógino ou um Deus para lá do sexo e do género, ou uma Deusa — é
ainda vulnerável a quatro géneros principais de objecções de uma perspectiva
feminista.
A primeira
objecção às reinterpretações feministas de Deus deriva da questão exegética de
ser ou não verdade que a reinterpretação das religiões monoteístas de maneiras
menos sexistas e aparentemente mais simpáticas às mulheres tem validade e
justificação à luz das escrituras e de outros tipos de indícios arqueológicos
que são canonicamente considerados pelos crentes como justificação da crença
num ser divino. Por exemplo, Helene P. Foley, ela mesma simpática a
perspectivas feministas sobre a religião, argumenta que os indícios
arqueológicos não sustentam as reapropriações da Deusa e que as feministas
abordaram os textos de maneira inconsistente: “Aqueles aspectos da tradição
antiga que reflectem a leitura feminista da pré-história são lidos
literalmente, ao passo que o resto é tratado metaforicamente” (Foley 2001:
219). Contudo, dado que esta é uma questão recorrente para teólogos, feministas
ou não, um problema quanto aos fundamentos literários, antropológicos e
históricos destas afirmações (Ruether 1993: 491), não tentarei explorá-lo.
Além disso, a
avaliação filosófica do valor de verdade e da força epistémica das afirmações
feministas sobre o divino não dependem disso.
A segunda
objecção às reinterpretações feministas de Deus baseia-se em preocupações
quanto a quem tem o ónus dos indícios. (A ideia de “ónus dos indícios” parece
mais justa do que “ónus da prova” porque pode ser injusto esperar provas em
filosofia da religião, ou em qualquer outra área da filosofia.) E eu sugiro que
tem o ónus dos indícios quem afirma a existência de um Deus reconfigurado, ou
Deusa. A mera conveniência e maior aceitabilidade moral de uma divindade
assexista não é suficiente para mostrar que tal divindade existe. Na esteira de
Anthony Flew, sugiro que compete ao crente num Deus ou Deusa assexista mostrar,
primeiro, que o conceito do Deus ou Deusa assexista faz sentido (i.e., as
palavras “Deus” e “Deusa” têm de ter um “significado tal que seja teoricamente
possível que um ser efectivo seja como a palavra o descreve”) e, segundo, que
há boas razões para acreditar que o conceito tem “uma aplicação” (Flew 1984:
15-16), isto é, que existe um Deus ou Deusa assexista. Este ónus dos indícios
não significa que se começa com o pressuposto ateu positivo de que não existe
um Deus ou Deusa assexista; mas significa, contudo, que se começa com a
ausência de qualquer crença num Deus ou Deusa assexista (uma versão do que
Martin chama “ateísmo negativo” (Martin 1990: 463-64)), procurando-se depois
que os crentes forneçam razões suficientes a favor da crença. Quem afirma a
existência de algo novo na realidade tem de cumprir a exigência de mostrar por
que se há-de aceitar tal afirmação.
Ora,
argumenta Martin, no contexto das ideias tradicionais sobre Deus,
independentemente de quem tem o ónus da prova no debate entre teísmo e ateísmo,
o papel epistémico e retórico de quem não é crente não é afectado. Pois quem não
é crente tem mesmo assim de se defender: tem, pelo menos, de responder aos
argumentos avançados pelo crente (Martin 1990: 30). Contudo, como observei, as
filósofas e teólogas feministas não tentaram defender as suas crenças no
divino. Em particular, não forneceram argumentos a favor da afirmação de que a
Deusa existe. Mas quem a aceita tem a responsabilidade epistémica de fornecer
indícios a favor da afirmação de que existe tal Deusa.
A terceira
objecção às reinterpretações feministas de Deus é que, ainda que uma ou mais
dessas reinterpretações se justifiquem em termos exegéticos, contudo, na medida
em que defendem a existência objectiva do divino, ficam à mercê da maior parte
dos ataques que se fazem aos argumentos monoteístas e vulneráveis aos argumentos
ateus contra o teísmo tradicional. Como afirma Noddings, “Não vejo mais
indícios a favor da existência efectiva de uma “Criadora” benevolente do que
vejo a favor de um Deus masculino sumamente bom” (Noddings 2003: 216). O facto
pragmático — se é um facto, e não se reuniram quaisquer indícios empíricos que
o demonstrem — de que é menos provável que a crença num Deus ou Deusa assexista
(se é que estes conceitos realmente fazem sentido) sustente a opressão das
mulheres do que a crença no Deus tradicional não é suficiente para mostrar que
há tal ser. No máximo tal facto, se for um facto, mostraria que as religiões
baseadas num Deus ou Deusa assexista são potencialmente menos destrutivas do
que as religiões tradicionais baseadas em Deus.
Quarto,
algumas feministas levantaram a questão de saber se o Deus feminista
reconfigurado reforça, apesar das intenções feministas, crenças antifeministas.
Foley, por exemplo, pergunta-se se celebrar a Deusa “corre o risco de
representar uma perspectiva ingenuamente unitária do feminino e de reflectir e
reproduzir pressupostos culturais dominantes sobre as mulheres” (Foley 2001:
221). Isto é, o culto da Deusa é implicitamente essencialista, ignorando de
diversos modos a verdadeira diversidade das mulheres no espaço e no tempo.
Outras objecções feministas às reinterpretações feministas de Deus dizem
respeito ao papel da hierarquia e poder no seio de qualquer sistema religioso
que seja monoteísta. Assim, escreve Jantzen, “substituir “Deus pai” por “Deus
mãe,” deixando concomitantemente o conceito de Deus na mesma (“Deus de saias”),
não muda por si grande coisa” (Jantzen 1998: 269). Como a própria Carol Christ
reconhece, “Algumas [feministas] afirmariam inequivocamente que a Deusa não
“está lá fora,” que o símbolo de uma divindade “lá fora” é parte do legado da
opressão patriarcal, que traz consigo o autoritarismo, o hierarquismo e a
rigidez dogmática associada às religiões bíblicas monoteístas” (Christ 1979:
278, itálico no original). As reinterpretações feministas apoiam-se nos mesmos
dualismos suspeitos que afectam o teísmo tradicional: dualismos entre o
imanente e o transcendente, o humano e o divino, o feminino ou a mulher e o
masculino ou o homem, o sumamente bom e o que é por inerência moralmente
imperfeito. Tais dualismos são há muito objecto de crítica feminista. Se as
teólogas e filósofas da religião feministas postulam um Deus ou Deusa assexista
com existência objectiva, independente de seres humanos, este postulado de modo
algum obvia a suspeita feminista hermenêutica central de que é a noção de um
ser supremo, como legislador, projectista e criador, que cria tanto a
oportunidade cultural como a justificação moral para acreditar e aderir a uma
perspectiva hierárquica dos seres humanos que considera que certos tipos de seres
humanos — o homem, o heterossexual, o branco, o rico, o forte, o jovem e o
cristão (ou judeu ou islâmico) — são superiores a outros tipos de seres
humanos. Além disso, propor um Deus feminino, um Deus andrógino ou uma Deusa
retém um dualismo de género excessivamente generalizado, com todas as suas
dúbias implicações para as interacções humanas. Assim, as reconstruções
feministas de Deus não conseguem evitar os tipos de objecções morais,
metafísicas e epistemológicas que os ateístas têm com tanto sucesso levantado
ao Deus tradicional.
3. UM ARGUMENTO MORAL
FEMINISTA A FAVOR DO ATEÍSMO
A outra
maneira possível de um teísta defender a crença na existência de Deus contra a
acusação de que tal crença está viciada pelo mal perpetrado às mulheres em nome
da religião é argumentando que o estatuto e papéis atribuídos às mulheres nas
religiões monoteístas tradicionais são precisamente como devem ser: de acordo
com a vontade de Deus e com o seu plano divino para o “Homem.” Seja o que for
que as mulheres sofreram está de acordo com o seu estatuto de segunda classe ou
é o resultado justo por não serem obedientes aos mandamentos de Deus ou é em
alguns casos uma consequência da falibilidade dos homens que interpretam o seu
estatuto dado por Deus como uma autorização para tratar mal as mulheres.
Obviamente que este não é um contra-argumento que as feministas avançariam, mas
antes uma parte reconhecível da crença fundamentalista contemporânea de
direita.
Decidi dar
alguma atenção a este contra-argumento ao argumento feminista do mal porque
isso ajuda a sugerir outro argumento feminista a favor do ateísmo, baseado no
que Noddings chama “objecções éticas” (Noddings 2003: 214). Pois o sucesso de
tal contra argumento depende de um pressuposto de fundo sobre o que se toma como
mais fundamental: uma convicção sobre a igualdade das mulheres como pessoas ou
uma convicção sobre a natureza patriarcal de Deus.
Pela boca de
Sócrates, Platão levanta uma pergunta famosa: “O que é sagrado é sagrado porque
os Deuses o aprovam, ou aprovam-no eles porque é sagrado?” (Platão 1961: 178).
Se Deus ordena que façamos X porque é correcto, então há um padrão da acção
correcta que é independente da vontade de Deus. Consequentemente, Deus é
desnecessário como pedra-de-toque moral. Por outro lado, se X é correcto porque
Deus o ordena, então a moralidade de nada depende, aparentemente, senão da
vontade de Deus e, portanto, quaisquer acções aparentemente abomináveis
(incluindo acções sexistas e misóginas) poderiam ser afinal correctas se Deus
as ordenasse.
Perante tal
dilema, as ateias feministas argumentam que as mulheres são de facto pessoas e
que sabemos que isto é verdade independentemente do que Deus supostamente
disse. Assim, as feministas ateias adoptam a primeira alternativa do dilema de
Êutífron: os padrões éticos são independentes da vontade de Deus. Se acreditar
no Deus tradicional exige o abandono da igualdade das mulheres enquanto
pessoas, então as ateias feministas argumentam que a escolha moral é rejeitar
Deus, e não a igualdade das mulheres.
Uma objecção
moral ao teísmo relacionada com esta é que centrar-se em Deus, seja qual for a
sua versão, é, nas palavras de Carol Christ, “uma fuga do trabalho político
difícil mas necessário” (1979: 279).298 A doutrinação religiosa pode
facilmente afastar os seres humanos de finalidades morais difíceis de justiça
social, igualdade de género e raça, paz e viabilidade ambiental. Há um perigo
real de que o serviço religioso possa promover a aceitação do status quo, quer
por o ver como parte do mundo criado por Deus quer por ter a esperança na
redenção na outra vida. A crença em Deus é um estorvo moral, um desvio dos
objectivos feministas.
Ora, as
teístas feministas poderiam argumentar que de facto muitos crentes religiosos são
activos em causas de justiça social e que a teologia progressista apoia
objectivos libertadores. Ter uma crença em Deus pode ser muitíssimo motivador,
inspirando os crentes a tornar-se os seres morais que se diz que Deus quer que
sejam. Mas esta objecção pode ser posta em causa por meio da pergunta de
Êutífron: as teístas feministas sabem que é correcto trabalhar pelo fim da
opressão porque Deus lhes disse? Ou sabem as teístas feministas previamente que
é correcto trabalhar pelo fim da opressão, concluindo depois que este objectivo
tem de fazer parte dos planos de Deus? As ateias feministas argumentam que não
precisamos de Deus para sancionar o activismo, nem mesmo para o inspirar; este
justifica-se por razões que não são teístas. Logo, tanto em termos da
eficiência política como de consistência moral, faz sentido não acreditar no
Deus monoteísta.
4. OUTRAS ABORDAGENS
FEMINISTAS À CRENÇA RELIGIOSA
Minimizar o
papel da crença
Algumas
feministas tentam iludir as objecções feministas ao teísmo reconceptualizando o
papel da crença na religião e tirando-lhe importância.
Como afirmei
no início deste capítulo, as teólogas e filósofas da religião feministas não se
interessaram muito pela ideia de provas racionais a favor da existência de
Deus. Estas feministas oferecem várias razões tanto para explicar como para
justificar o que pensam que é a irrelevância dos argumentos filosóficos com
respeito a Deus. Teístas feministas como Amy Hollywood e Grace Jantzen criticam
as perspectivas de Deus que tratam a religião como se consistisse
primariamente, ou até exclusivamente, num conjunto de crenças, como se a crença
fosse a fundação de toda a prática religiosa, e que ignoram outros aspectos da
vida religiosa (Jantzen 1998; Hollywood 2004). Estes outros aspectos incluem a
experiência religiosa, rituais e práticas religiosas, a celebração e homenagem
corpórea do divino (Thie 1994: 231; Gross 1996: 228). Assim, por exemplo, a
feminista Jacqueline Scott, que se converteu ao judaísmo, escreve que no
judaísmo “A fé de cada um se mede primariamente pelos seus actos e não pelas
suas crenças. A ideia é que realizar o ritual de certos actos ajuda a
desenvolver as crenças concomitantes. Trabalha-se do exterior para o interior”
(Scott 2003: 135). Como pessoa de fé, afirma Scott, não se espera que seja
racional e não tenta (e não se espera que tente) explicar as suas crenças e
práticas racionalmente:
“Apesar de
ter entrado no processo de conversão como um exercício teórico, académico,
emergi dele centrando-me no prático e no espiritual. Ao contrário do que ocorre
com os aspectos filosóficos e até feministas da minha arte de viver, não me
sinto obrigada a conseguir compreender completamente pontos de vista
diversificados e a concluir quais são melhores. Não me sinto obrigada a ser racionalmente
consistente em termos dos rituais que adopto ou do modo como os pratico.”
(Scott 2003: 137)
Alternativamente,
algumas feministas sugeriram que uma crença feminista em Deus, talvez um Deus
reconstruído, ou Deusa, pode justificar-se por razões pragmáticas. Apesar de se
dizer ateia, Noddings, por exemplo, escreve: “Se uma mudança na imagem da
divindade pode conduzir-nos na direcção de uma maior valorização da criação e
da gentileza em detrimento da destruição e crueldade, é uma mudança a encorajar
[…] O valor das teologias feministas tem de residir nas suas consequências para
a vida humana” (Noddings 2003: 217). Noddings parece pensar que é possível ter
e usar este conceito sem fazer “afirmações ontológicas” sobre algo que
corresponda ao conceito. As teístas feministas argumentam também que a religião
e a crença religiosa são capitais para a capacidade das pessoas para resistir,
para continuar em frente. Afirma Christ: “Os sistemas de símbolos não podem
pura e simplesmente ser rejeitados, têm de ser substituídos. Quando não há
substituto, a mente regressa às estruturas conhecidas quando se depara com
momentos de crise, perplexidade ou derrota” (Christ 1979: 275).
Contudo, é
implausível supor que pudesse haver uma religião monoteísta sem crenças. Por
mais que uma religião monoteísta seja outras coisas — e é claro que é provável
que contenha muitas práticas, actividades e rituais diversificados — no mínimo
inclui crenças.
Noddings reconhece
que “um sistema de símbolos sem base ontológica é algo espiritualmente
insatisfatório” (Noddings 2003: 217), mas é mais do que isso: um sistema de
símbolos sem base ontológica não pode ser uma religião monoteísta.
Além disso,
abandonar a razão, como Scott diz ter feito, parece um conselho fruto do
desespero. Apesar de poder ser libertador em alguns aspectos sentir que não
precisamos de compreender ou explicar ou justificar, é também perigoso.
Abandonar a responsabilidade epistémica deste modo pode conduzir à
irracionalidade ou à tolice noutras áreas da vida. Além disso, as defensoras
feministas do teísmo indoxástico têm de reconhecer que uma religião composta
primariamente de experiência, práticas, rituais, celebração e homenagem é tão
passível de estar envolvida na opressão das mulheres quanto um teísmo
doxástico. Estas experiências e práticas podem envolver sentimentos de
humildade e insignificância e actividades de auto-humilhação e renúncia de si
que são tão invocadoras da relação patriarcal de mestre-escravo quanto as
crenças tradicionais monoteístas.
Sofrem as
feministas uma perda pragmática se não acreditarem no Deus monoteísta? Diria
que não, dado que os efeitos libertadores da independência e autoconfiança que
o feminismo oferece são mais poderosos do que a anomia que pode surgir da perda
da crença. Além disso, não pode ser bom que os membros de um grupo subordinado
se agarrem a uma perspectiva da realidade que há indícios fortes para pensar
que é falsa.
Uma divindade
imanente
Algumas feministas
são ateístas no sentido negativo, isto é, não acreditam num Deus criador
pessoal (Martin 1990: 463-64); contudo, sentem uma necessidade de compreender o
que Noddings chama os nossos “anseios espirituais” (Noddings 2003: 222). Uma
maneira de o fazer é o que Hewitt Suchocki chama a “rejeição da transcendência
de Deus a favor de um Deus totalmente imanente” (Hewitt Suchocki 1994: 58),
isto é, a adopção do panteísmo. Ao adoptar uma perspectiva panteísta do
universo, feministas como Jantzen rejeitam tanto as religiões monoteístas
tradicionais quanto o ateísmo positivo, ao mesmo tempo que mantêm uma atitude
de aceitação em relação à espiritualidade. Frankenberry explica: “[Algumas]
formulações de mulheres contemporâneas de uma relação entre Deus e o mundo
descrevem o divino como algo que está na continuidade do mundo, em vez de ser
radicalmente transcendente ontologicamente ou metafisicamente. A transcendência
divina é vista como uma imanência total” (Frankenberry 2004: 11). Contudo, esta
forma de panteísmo não é mero reducionismo. Como Jantzen explica, “o mundo está
para Deus de algum modo como o meu corpo está para mim: é o meu eu corpóreo, e
contudo não sou redutível aos seus processos fisiológicos” (Jantzen 1998: 265).
Como acontece
com as perspectivas místicas quanto à ideia do divino (Stace 1960), o panteísmo
é a antítese dos dualismos eu/outro, criador/criado, sagrado/secular
pressupostos pelo teísmo tradicional. Como afirma Jantzen,
“Sugerir que
num certo sentido o divino é inseparável do universo físico, como o faz o
panteísmo, não seria apenas sugerir uma mudança de doutrina teológica […] Se o
panteísmo fosse seriamente tido em consideração, toda a simbologia ocidental,
dado ser constituída pelas polaridades binárias que a atravessam como uma
fractura tectónica, seria posta em questão […]
Em vez do
domínio sobre a Terra que rapidamente está a trazer a sua destruição, haveria
reverência e sensibilidade; em vez de ver a dominação como divina, vê-la-íamos
como totalmente contrária à divindade.” (Jantzen 1998: 267-68)
Assim, “o que
é divino, o que tem valor e valia últimos, não pode ser definido como se fosse
separável do universo material e da sua diversidade, tendo ao invés de ser
constitutivo do universo e constituído pelo universo” (Jantzen 1998: 269).299
O panteísmo
feminista é muito diferente da crença no Deus monoteísta transcendente, no
sentido usado no princípio deste capítulo — “um ser pessoal omnisciente,
omnipotente e sumamente bom e que criou os Céus e a Terra” (Martin 1990: 463),
e suscita o seu próprio conjunto de questões ontológicas e epistemológicas.300
Apesar de eu considerar que o panteísmo é de grande interesse, o seu exame
ultrapassa o âmbito deste capítulo porque o conceito de divino em causa é muitíssimo
diferente do monoteísta.
5. CONCLUSÃO
Segundo
Keller, “as feministas ateias ou agnósticas ignoram a palavra de Deus por sua
conta e risco” (Keller 1998: 228). Ela quer dizer que as feministas ateias e
agnósticas não devem rejeitar de ânimo leve o conceito de Deus e o seu poder na
cultura ocidental. E tem razão: as feministas têm de investigar e compreender a
influência social, cultural e económica das religiões e ideias monoteístas
sobre Deus. Contudo, há boas razões para as feministas não acreditarem num tal
Deus.
Poderá haver
argumentos distintamente feministas contra a existência do Deus
judaico-cristão? A minha resposta é que há várias razões para as feminizas
serem ateias no sentido positivo. As ateias feministas podem usar uma versão do
argumento do mal, citando o sofrimento e maus-tratos que as mulheres e crianças
têm sofrido em resultado das religiões monoteístas. Além disso, as tentativas
de algumas feministas reconstruírem Deus como feminino, andrógino, sem género
ou como Deusa são inadequadas porque levantam questões que ficam por responder
quanto à justificação da crença em tal ser. Em resposta às antifeministas que
podem afirmar que a opressão das mulheres é uma expressão da vontade de Deus,
as ateias feministas podem usar um argumento moral segundo o qual o
conhecimento da igualdade das mulheres enquanto pessoas exige a rejeição de um
Deus que prega a inferioridade das mulheres.
Não se pode
preservar o teísmo afirmando a importância das práticas religiosas e negando a
importância das crenças, conceitos e argumentos. Por fim, apesar de algumas
feministas serem panteístas, o seu panteísmo é consistente com o ateísmo
negativo com respeito ao Deus pessoal tradicional.
Notas
1 O termo
inglês original é o tabuísmo ofensivo whore, e não o termo neutro prostitute.
N. do T.
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